sábado, 20 de fevereiro de 2016

A universal língua do esporte. Pense sobre isso na hora de falar!


Eles, Elas... A MASSA ATLETICANA! 

Por Alessandra Leles Rocha 

Seja no Horto ou no Mineirão, ou quaisquer outros lugares do planeta, em que as bandeiras alvinegras do Galo sejam tremuladas pela MASSA ATLETICANA, a sensação é uma só: emoção pura correndo nas veias. Pergunte a qualquer cidadão atleticano o que significa isso, que a resposta vem simples sob um “estado de espírito”. E é isso mesmo; é muito mais do que simplesmente animação de torcida. Talvez nenhuma palavra consiga de fato traduzir; mas, só de ver a MASSA reunida... a voz embarga, o coração dispara, a pele arrepia. Algo único, genuinamente atleticano. Torcida todo time tem, mas só essa turma pode gritar: “Aqui é Galo!”.

E diante de tudo isso, o ano mal começou e nos impôs uma reflexão importante à envergadura do Galo mineiro, no que diz respeito à sua MASSA. Se nunca a observou passe a observá-la com atenção. Dando graças a Deus pela evolução dos tempos e a democratização nos estádios, o futebol brasileiro pode hoje dizer que tem uma torcida socialmente representada na sua diversidade; e a do Galo não poderia ser diferente.

A identidade atleticana não tem gênero, não tem etnia, não tem credo, não tem escolaridade, não tem status. A MASSA está acima da discriminação, da intolerância, do preconceito, das ações tristes e dispensáveis que costumam macular a sociedade e o esporte em geral. Afinal, o espetáculo depende dela muito além do entusiasmo. É toda essa gente bonita e contagiada pela mais pura emoção humana que sai de casa debaixo de chuva ou sol, que enfrenta fila, que gasta o que pode (e até o que não pode, muitas vezes) para prestigiar e valorar esse escudo.

Só que de repente, deu pane na cabeça de uns e outros. Um apagão ético se abateu, e o discurso escorregou e caiu em terreno ruim. É; já faz tempo, muito tempo, que futebol ou quaisquer outros esportes deixou de ser ‘coisa de homem’ e, por essa razão, cometer o desalinho desse pensamento nos dias de hoje torna-se uma gafe terrível.

Qualquer coisa que se faça de maneira descontextualizada é um risco e o Galo mineiro pagou por ele no lançamento oficial do seu uniforme 2016, quando optou pela presença de modelos de biquíni usando, também, a camisa oficial ou a bandeira do clube. A falta de contexto começa pelo fato de que era o lançamento oficial do uniforme de um time de futebol, o que inclui camisa, calção, meião e chuteira; não, não era um lançamento de lingerie. Depois, porque lamentavelmente, o clube não pensou do ponto de vista mercadológico na possibilidade de que todas as versões desses novos uniformes viessem a atender também à demanda do segmento feminino da MASSA; já que as próprias modelos apresentaram a ‘versão masculina’ das camisas. Por fim, mais uma vez o inconsciente coletivo da sociedade não se constrangeu em expor os corpos femininos enquanto cobriu os masculinos.

É por essas e por outras, que ao se debater a necessidade de reformulação do futebol brasileiro, penso sinceramente que a inclusão desse assunto é fundamental. A aceitação da presença feminina na sociedade, em geral, ainda passa por uma questão muito mais impositiva do que natural e voluntária, pela maioria das pessoas. A invisibilidade, por exemplo, em relação às nossas atletas é um obstáculo a ser vencido no contexto de inúmeros desportos; não só pela questão da diferença salarial, quanto pela própria falta de oportunidade logística e institucional para treinar e despontar seu talento.  

Entretanto, como bem destacou o último relatório da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013, “No Brasil, as mulheres são maioria da população, passaram a viver mais, têm tido menos filhos, ocupam cada vez mais espaço no mercado de trabalho e, atualmente, são responsáveis pelo sustento de 37,3% das famílias [...]” 1. Então, se pensarmos proporcionalmente nas nossas torcidas, elas também podem ser maioria nos estádios e ginásios; bem como, as responsáveis pelo aumento dos lucros com a venda dos artigos promocionais das equipes.  Ah, mas há quem ainda persista em pensar que isso é ‘mi-mi-mi’ de feminista. Ou continue a se indignar e repudiar, somente, quando um homem é ofendido, com palavras de baixo calão ou injúrias racistas ou homofóbicas.

Então, polêmicas à parte e fazendo desse limão uma limonada, que tal unir razão e sensibilidade, hein?! Daqui a alguns dias, chega mais um ‘8 de março’2 e todo mundo resolve oferecer flores, gratuidade de ingressos, homenagens, blábláblá... sem nenhuma mudança de paradigma consistente. Ora, somos humanos, homens e mulheres, trezentos e sessenta e cinco (seis) dias por ano. Desfrutando as venturas e desventuras desse mundo caótico que está aí. Portanto, é preciso repensar os valores para acompanhar as demandas do mundo e preservar aqueles que são fundamentais para sobreviver. Liberdade, igualdade e fraternidade, por exemplo, estão e estarão sempre na moda; por isso, já pensou se de agora em diante a MASSA pudesse sentir legítimo o grito: “Nós somos Galo!”? O canto orgulhoso do alvinegro mineiro estaria completo.


1 http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/03/mulheres-sao-maioria-da-populacao-e-ocupam-mais-espaco-no-mercado-de-trabalho
2 Dia Internacional da Mulher

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