segunda-feira, 4 de abril de 2016

Não há comunicação sem intenção. Pense nisso!!!


O Mundo e as Pimentas 

Por Alessandra Leles Rocha 

Diz o provérbio que “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Sabe que ele tem razão! É, em plena pós-modernidade, cada dia mais as pessoas se abstêm de se colocarem no lugar do outro, de buscarem compreender as mazelas e os desencantos que fazem sofrer os passantes. Que resolvam sozinhos, que engulam o choro, que façam cara de paisagem,... mas, que não tragam à minha porta o seu quinhão de infelicidade. Infelizmente, tem sido assim!

O que esse ‘poço de insensibilidade humana’ se esquece é de que em muitas dessas circunstâncias, ele teve participação de destaque. Sim, foi ele direta ou indiretamente que fez da vida do outro um verdadeiro inferno. Seja por atos ou omissões, a verdade é que ele só fez bagunçar os caminhos alheios e torna-los tão difíceis, que se chega a crer na impossibilidade de reverter os resultados. Afinal, a vida não oferece grandes oportunidades de passar a escrita a limpo; já que, o tempo é inexorável. Desse modo, como não há texto sem intenção, aqui e ali eles vão deixando nossos olhos rubros e ardidos por tantas pimentas.  

O pior de tudo não é os olhos ficarem assim; o pior é o queimar da alma. Nossos sutis, quase imperceptíveis, algozes não têm por hábito admitirem suas intenções. Manobrando com habilidade a língua ferina, eles escamoteiam suas verdadeiras intenções, ao ponto de que outras pessoas de fato não percebam o endereçamento de suas flechas pontiagudas. Por essa razão é que as pimentas começam a fazer efeito. Olha, e nem com todo banho de lágrimas ou água de arruda se consegue estancar essa dor; é como se as janelas da alma precisassem ficar abertas para que algum dia o mais profundo do nosso ser seja capaz de cicatrizar.

Também não podemos desconsiderar o fato de que são as pessoas mais próximas, as que causam mais impacto nesse tipo de comportamento. Por acreditarmos que a proximidade cotidiana gera a cumplicidade, a intimidade entre os seres humanos, é que nos vemos quase sem chão, quando descobrimos que elas não nos conhecem em profundidade. Assim como o restante do mundo, elas nos enxergam apenas sob um prisma superficial e limitado aos seus próprios interesses. Olham de cima do muro e fazem suas leituras dos outros, como se tivessem um manual perfeito para tal.

Não é à toa que passamos a ser enaltecidos por nossos defeitos, nossas imperfeições humanas; como se isso bastasse para explicar ou justificar o que acontece de ruim  ou de inconsistente em nosso dia a dia. Todas as demais incógnitas, conjunturas, interferências desse mundo social que habitamos são sumariamente descartadas. Somos cem por cento ‘culpados’ por cada gota de pimenta que arde em nossos olhos e ponto final. Mas, ai de quem contestar essas pessoas. Elas viram ‘bicho’.  Perdem a compostura e destilam ainda mais a sua ‘superioridade’ diante dos demais. Posam de vítima, reafirmando seu altruísmo e sua benevolência em relação aos outros.

É minha gente; mas, tudo isso é cansativo demais! Todo mundo tem suas próprias correntes para arrastar, o que em hipótese alguma dá direito de ranquear as dores uns dos outros em mais ou menos importante; sobretudo, quando se tem uma parcela de ‘pimenta’ considerável na história do semelhante.  Chega de bradar aos quatro cantos que só abre a boca com ‘boas intenções’; porque, como dizem por aí, ‘o Inferno anda cheio’! O que a humanidade precisa é de olhos sãos, para enxergar o ser humano além do visível. Como esperar mais fraternidade, mais amor, mais caridade se os olhos não levam à alma o que é realmente essencial? É preciso reavaliar as intenções, recuperar a visão para poder estabelecer uma comunicação mais verdadeira.

Então, abramos os nossos olhos do corpo, da alma, e reflitamos sobre essas duas afirmações do escritor José Saramago, em seu livro Ensaio sobre a Cegueira: “É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós”. “[...] se antes de cada ato nosso nós puséssemos a prever todas as consequências dele a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala”

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