quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Setembro Amarelo: Leia esse conto e aproveite para refletir!!!

Pedro decide morrer – Igor Freitas

Parei em frente à barreira do viaduto, baixa e bamba, e contemplei o cenário daquela madrugada comum. Debrucei-me sobre as plaquetas de concreto frio e fiquei a olhar fixamente para o horizonte logo a minha frente. Havia tantas nuvens no céu, tantos carros passando logo debaixo de meus pés, tantos fantasmas dentro de meu coração... Um passo e todos iriam embora, embora como as nuvens, livre como os pássaros. Tinha a mão firme, segurava com força já me preparando para me levantar e me equilibrar do outro lado, onde não havia mais barreiras. Meus pés estariam livres para seguir em frente e cair. Não cair, voar!
Estou prestes a levantar a perna quando escuto um homem vir caminhando até mim, vindo da direita. Estranho. Era tarde e poucos passavam ali a pé. Seria um bandido? Ótimo, serei assaltado; mas, ora essa, e daí se eu for? Não tenho mais nada pelo o que viver, afinal de contas. Que me roube logo meus pertences; que me esfaqueie – bom que não terei meu próprio sangue nas mãos. Deus sabe o quanto eu desejei que meu sangue escorresse por mãos alheias. Assim, ao menos eu teria a ilusão de que não causei a minha própria morte. Seria um infortunado, uma vida perdida, não uma vida jogada fora. Já pensei em várias maneiras de como morrer sem parecer que essa havia sido minha escolha. Ninguém precisava saber de minha fraqueza. Ninguém precisava se lembrar de mim pelos estragos causados por eventos os quais eu não tinha controle. Queria morrer como uma vítima, não como um fracassado.  
Mudei de ideia ao perceber que estava sendo um covarde. Mesmo na morte, não tinha coragem de assumir meus atos. Sim, eu quero morrer. Sim, essa é minha escolha. Não fingirei um acidente, não colocarei o peso da minha vida perdida nas costas de um inocente. Assumirei meu erro, e quando encontrarem minha carta, ficará bem claro que a única pessoa responsável por isso sou eu próprio.
Talvez fosse por isso o meu desconforto com a presença do homem que vinha até mim. Eu já havia me decidido que era assim que queria partir: era minha escolha, droga! Deixem saber que morri por causa disso. Deixem saber de todas as tragédias que enfim me ruíram. Não queria ser meramente reduzido a um latrocínio, a um psicopata barato ou alguém ainda mais esquecido por Deus do que eu. Estava decidido a enfrentar o homem caso fosse necessário. Com ele mais próximo e com mais inspeção, percebo que se trata de alguém velho, mais velho que eu ao menos: quarenta, talvez cinquenta anos. Vestia roupas sem cor, largas e velhas, e sua face era carregada, olhos pesados circulados por olheiras, um rosto envelhecido de alguém que talvez já tivera alguma beleza.
Não fiquei a encará-lo. Tratei logo de voltar a face para o horizonte como se fosse um mero bêbado contemplando a paisagem numa madrugada de quarta-feira. Presumi que ou ele me assaltaria ou seguiria em frente, preocupado com seus próprios problemas. Em vez disso, o bendito parou, assumindo uma posição semelhante à minha, a uns três metros de distância.
Fiquei incomodado com sua presença. O homem, ao contrário, parecia tranquilo: tirou um cigarro do bolso e acendeu, tragou e observou. Só fez observar, e logo já não podia mais ignorar sua presença ali.
Não foi necessário, no entanto: ele se pronunciou primeiro.
— Quer um trago?
— Não, obrigado. Parei tem dois meses.  
Ele riu.
— Parou nada. Você traga um toda noite antes de dormir.
Franzi com sua asserção correta, mas logo presumi que ele simplesmente conseguiu farejar o fedor de fumaça do cigarro que havia tragado horas atrás; horas antes de eu decidir morrer.
Quis manda-lo ir se foder, mas parei. Era engraçado, todas as minhas reações normais em situações sociais já não pareciam fazer sentido agora que eu havia decidido morrer.
— Tá certo.
Ele se aproximou, entregou-me o cigarro, acendi, inalei com vontade e exalei. Vendo-o mais de perto, percebo algo intrigante em sua aparência, apesar de não entender exatamente o que era.
— Está aqui pelo motivo que acho que está? – Pergunto, pertinente. Novamente, era algo que eu jamais faria se eu não tivesse decidido morrer; eu simplesmente teria ignorado esse doido, seguido com a minha própria vida e o deixado com seus próprios pensamentos.
— Me matar? Ah, não. É um péssimo lugar para morrer, não acha?
— Como assim? Estarei morto mesmo. Tanto faz.
— É mesmo? Então não liga para o que acontecer quando partir a cabeça no para-brisa de um carro aleatório?
— Vou esperar os carros pararem.
— E se um passar por cima de seu corpo e bater? Já pensou o problema que isso vai causar para as pessoas que estavam no veículo?
Fiquei em silêncio. É claro que havia pensado em tais possibilidades, mas não conseguia conceber outra forma de morrer. Não queria sangrar até desfalecer no meu apartamento com cortes nos pulsos – muito lento e doloroso. Não tinha uma arma para algo fácil e prático, e as cordas que eu tinha não aguentavam meu peso. Melhor mesmo cair.
— Eu não quero trazer problemas para ninguém. Só não consigo mais lidar com os meus.
— Então você vai simplesmente passar a dor adiante? E sua família? Amigos?
Suspiro.
— Olha, quem é você? Desculpe, mas eu não tô a fim de ser julgado por um repleto estranho.
— Eu te conheço melhor do que você pensa, Pedro. Agora, fiquei surpreso. Tudo bem ele adivinhar o cigarro, mas meu nome era um tanto demais.
— Eu não te conheço. Por favor, me deixe em paz.
— Tudo bem, se é o que você quer! Vá em frente. Se mate!
E ficou lá parado, olhando. Quis simplesmente pular a grade e saltar, mas o olhar daquele homem me incomodava profundamente.
— E quanto a você? – Estressei – Que faz aqui, afinal de contas? Veio só me impedir de me matar?
— Sim.
Paro, confuso.
— Como é?
— Sim, eu vim aqui impedi-lo de se matar.
— Eu nem sei quem é você!
— Porra, Pedro, olha de perto! Não me reconhece?!
Enfim, aproximei-me mais do homem. Parei a meio metro dele e observo seu semblante. Logo, num enorme espanto, fui reparando cada traço dele: seu nariz levemente torto, seus olhos grandes, meio redondos, as sobrancelhas abertas.
— Meu Deus! Você é...
— Você. Eu sou você, Pedro, daqui a vinte anos.
Era uma piada. Uma piada muito bem elaborada, sim, mas uma grandessíssima piada.
Não sei por que, mas comecei a rir. Como que se reage ao conhecer você mesmo do futuro? Não faço ideia, então só rio.
— Viu? Sabia que faria isso. Você gargalha quando não sabe o que fazer. Achei que suas convenções sociais não faziam mais sentido agora que havia decidido morrer...
Droga, ele até parecia saber de meus pensamentos. Ele era mesmo eu. Eu era mesmo ele. Meu Deus.
— Tudo bem, então. Você está aqui para me dizer que a vida vale a pena, que as coisas melhoram, que vai dar tudo certo no final. Certo, pode começar. Estou curioso.
Ele – ou eu, sei lá – simplesmente tragou de novo e deu de ombros.  
— Minha vida tá uma droga. Tive altos, tive baixos. Depois, mais baixos. Já faz cinco anos que as coisas não melhoram. Agora, estou desempregado, endividado até o pescoço, solteiro e vivendo de favores. Não é exatamente uma boa vida.
Sinto o peito doer. Droga! Que piada divina mais cruel era essa?! Admito que por tolos dois minutos comecei a ter esperança de novo. Seria como aqueles contos-de-fadas, nos quais um evento mágico acontece e o herói é assegurado de que tudo daria certo: ele era o escolhido, o protegido, o especial. Por dois tolos minutos pensei que eu era esse escolhido. Quantas pessoas recebem mesmo a visita de si mesmas do futuro?
Volto a pensar que era tudo uma piada, uma encenação. Alguém estava tirando uma comigo, como se eu já não tivesse mais motivos para querer morrer. Mas, porra, ele era tão real! No começo, demorei a perceber, mas agora não conseguia deixar de me ver ali envelhecido logo diante de mim. Era algo que não podia mais conceber, então ficou só a tristeza. Minha vida realmente estava fadada à desgraça, e eu mesmo estava ali de prova.
— Então, é isso? Você é o que eu devo esperar para o meu futuro?
— Sim. E não. Eu sou o que você provavelmente vai ser. O futuro é algo incerto: não está gravado em pedra, como muitos acreditam. Esqueça as cartomantes! Quem sabe o que acontecerá amanhã? Tudo depende de suas atitudes.
— Não tô entendendo. Eu estou vendo você aqui. O que aconteceu com você?
— Eu sou você, Pedro: a pessoa que havia decidido morrer, mas que nunca morreu. Todos os dias da minha vida são dias assim, dias como hoje. Dias em que eu não tô nem aí pra convenções sociais, para o que os outros pensam, para mim mesmo. Só sigo nesse viaduto, olhando para sempre esse horizonte, esses carros passando e as nuvens no céu. Tudo, sem mudar nada. Sabe por quê? Porque eu não mudei. Nós não mudamos.
Fico mudo diante o que ele havia me falado. Escoro a face sobre a barreira enquanto digiro sua afirmação. Parte de mim queria soca-lo, mesmo eu não entendendo bem por que. Talvez fosse por ele estar me dizendo uma verdade, e eu não queria ouvir verdades. Queria ouvir mentiras bonitas, promessas de um futuro feliz, uma esposa linda, uma criança no colo, todos sorrindo diante uma casinha amarela com jardim, cerca branca e um cachorro no quintal. Por dois tolos minutos, eu havia acreditado que aquele homem me mostraria isso, mas não era verdade. Minha vida não mudaria porque eu não mudaria. Eu continuaria o mesmo, para sempre me destruindo nos meus próprios maus hábitos os quais eu estou cansado de saber que me ferem, mas que, por Deus, por um motivo eu não consigo muda-los.
— O que eu posso fazer?! Eu não sei! Eu já tentei mudar, mas não consigo.
— “Não consigo”. Adoramos falar isso, não é mesmo?
— Porque é verdade.
— É engraçado, mas antes de você decidir morrer, você também não conseguia falar com um repleto estranho, mas cá estamos.
— É diferente.
— Diferente por quê? Porque você não tem mais nada a perder? Acontece, Pedro, que tem sim, e eu sou a prova. Temos tanto a perder que adiamos nossa morte por vinte anos. Estou aqui, vinte anos esperando um milagre acontecer. Um evento mágico, igual naqueles contos-de-fadas, no qual um anjo apareceria para me salvar e blá-blá.
Aqui, ele respira fundo e dá uma nova tragada antes de completar:
— Baboseira.
Fico calado, esperando-o falar mais. No entanto, ele nada falou, só continuou a tragar.
— Eu não entendo. Você quer então que eu me mate? Você está claramente miserável.
O Pedro de quarenta e cinco anos levanta a cabeça e respira fundo.
— Eu fico pensando em todos os anos que se passaram desde que estive aqui, nesse mesmo viaduto, contemplando essa mesma escolha, e me pergunto se teria sido melhor. A dor com certeza teria acabado. Eu não teria tido tantas novas decepções e dificuldades que pareciam cada vez maiores. Quando eu penso em tudo isso, tudo em mim urge a implorar para você que morra, que acabe com todo o sofrimento que te espera.
Meus lábios tremiam, meus olhos estavam fixos em mim mesmo. Aquele homem indubitavelmente era eu.
Ele, eu, então, começou a chorar. Lágrimas silenciosas escorriam de suas bochechas magras e secas, seus olhos fundos sob olheiras estavam agora vermelhos, fracos, indefesos como os de uma criança, e me imploravam:
— Mesmo com tudo isso, Pedro, quando eu olho para você, agora, eu não consigo pedir para que morra. Eu não consigo. Eu queria muito, mas não consigo! Como posso? Olhe só para você! Como posso simplesmente lhe apontar uma arma e puxar o gatilho?
Ele chorava, e só então reparei o revólver em sua cinta. Fiquei trêmulo, paralisado diante aquela cena surreal.
— Eu menti. Não vim para impedi-lo. Pelo contrário, eu vim me certificar que iria realmente me salvar de vinte anos muito sofridos... Mas, bastou um só olhar para você para eu desistir da ideia toda. Eu sinto muito, Pedro. Eu sinto muito, muito mesmo.
Meu coração batia forte. Eu não sabia como reagir diante aquela cena. Eu não entendia mais o que ele, eu, queria de verdade, mas vê-lo assim de tal maneira só me mostrava que aquela vida não compensava.
— Pedro... – Chamei, sentindo o peso de meu próprio nome na língua – Eu não consigo mais! Se for isso que me aguarda, então... Então eu preciso fazer isso.
 Ele, eu, cessou o choro e respirou fundo. Tragou mais uma vez e fez como se nada tivesse acontecido, pois eu bem sabia que ele, eu, não gostava de chorar na frente dos outros.
— Tudo bem. Vá em frente.
Fiquei mudo novamente, agora repentinamente trêmulo diante o abismo à minha frente. Aquela conversa havia me abalado, e duvidava que conseguiria sequer passar minhas duas pernas por cima da barreira.
— Pode me dar a arma?
Ele, eu, olhou para mim, seus olhos ainda vermelhos.
— Posso. No entanto, não pode usá-la em si mesmo.
 — Como assim?
— Esse não é um revólver comum. Pode tentar se atirar com ele o quanto quiser. Não vai funcionar. Ele só funciona com os outros.
Não estava entendendo. Quem era o outro?
— Com outro? Quer dizer que você atiraria em mim?
— Sim. Foi para isso que eu vim: te matar; me matar. É mais fácil morrer com um rápido tiro, não é? É o que queríamos desde o começo, só que nunca tivemos uma arma! Agora, temos. Você só precisa atirar nele, e tudo ficará bem.
Ele, eu, entregou-me o revólver, mas a quem ele se referia?
Então, virei. Vi um menino andando em minha direção, vindo da esquerda. Um garoto pequeno, miúdo, de talvez um cinco anos. Era bonito, não pelos seus traços ordinários, mas por ele ser meramente uma criança comum e feliz.
Meu coração parou por dois segundos, meu corpo todo sentindo somente a sensação gélida do revólver em minha mão.
— Atire nele, Pedro. – Falou Pedro.
— O quê?!
O menino olhou para mim e começou a chorar:
—Não me mata, por favor!
E eu chorei também.
Desabei em lágrimas. Por mais alto que o menino chorasse, mais eu chorava junto. O dele era um choro genuíno de criança, um choro que partia o coração de um ditador, e eu estava ali, apontando uma arma para ele, pronto para lhe dar um tiro.
— Atire, Pedro. Vamos lá. É isso que você queria que eu fizesse, não é? É isso que você quer fazer consigo mesmo. – Falou Pedro.
Olhei para Pedro, seus pequeninos olhos, seu cabelinho preto escorrido, seu joelho ralado do futebol, e finalmente entendi o que Pedro quis dizer.
Como um ser humano poderia atirar naquela criança? Que tipo de monstro faria isso? Olhe só para ele, tão lindo, tão perfeito, tão cheio de vida e com um futuro pleno pela frente!
Gritei. Atirei a arma pelo viaduto e me caí de joelhos. Pedia perdão ao menino e o abracei, segurei-o forte e lhe prometi que nunca, nunca, nunca o machucaria.
Por vinte e cinco anos, pensei que não me amava. No entanto, ao ver aquele menino, percebi, finalmente, que meu amor próprio sempre existiu. Ele só estava enterrado pela dor. Estava cavado fundo dentro do meu peito, mas mesmo assim sobreviveu depois de quarenta e cinco anos. Por quarenta e cinco anos ele estava lá, e era por isso que Pedro não poderia simplesmente atirar em mim. Era por isso que eu não poderia simplesmente atirar em Pedro.
O sol despontou naquele momento iluminando as faces de nós três – a minha face. Pedro e Pedro sorriam, e eu sorria também. Vi cada um partindo, cada um de um lado, deixando-me ali no meio daquele viaduto, observando o horizonte.
Vivo.




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