segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sessão Pipoca...

Cidadão do mundo, qual é a sua identidade?

Por Alessandra Leles Rocha

O lobo talvez mude a pele, mas nunca a alma.
(Erasmo de Roterdã)


Adoro quando o cinema nos traz a possibilidade de refletir sobre a vida, em um misto de realidade e leveza. Essa tarde foi assim, ao assistir a produção franco-espanhola, de 2002, “O Albergue espanhol” (L'Auberge espagnole).
No fundo um filme jovem para todas as idades que já sabem onde está o próprio nariz. Afinal, o tema central é a identidade. O que queremos; o que sentimos; o que pensamos; o que fazemos;... Enfim, quem somos de verdade? Pergunta difícil de ser respondida, que dirá vivida. Porque falar sobre identidade é falar sobre construção humana; valores, gostos, princípios, crenças que adquirimos e lapidamos do primeiro ao último instante da nossa existência.
Sempre que falo sobre isso me lembro de uma citação de Eleanor Roosevelt, que foi esposa do presidente Franklin Delano Roosevelt e tornou-se grande defensora dos direitos humanos, que diz: “A filosofia de uma pessoa não é melhor expressa em palavras; ela é expressa pelas escolhas que a pessoa faz. A longo prazo, moldamos nossas vidas e moldamos a nós mesmos. O processo nunca termina até que morramos. E, as escolhas que fizemos são, no final das contas, nossa própria responsabilidade”.
Na história do filme, a personagem Xavier, um jovem de 25 anos, francês, estudante de Economia, embarca pelo programa de mobilidade estudantil Erasmus para Barcelona; como Erasmo de Roterdã, um homem que se opôs ao dogmatismo de sua época e foi desbravar vários locais da Europa para expandir o seu conhecimento e adquirir novos. Na verdade, ele está indo em busca de sua própria identidade.
Mas, para tal, o choque cultural será necessário e em meio à imersão nesse novo lugar, Xavier vai além de dividir um apartamento com jovens de outros países (Inglaterra, Itália, Dinamarca, Alemanha e Espanha), se relacionar com outras pessoas na Universidade local.  Entre estereótipos e preconceitos, os conflitos existenciais intra e extra mundos de Xavier começam a conquistar um espaço para se ressignificarem.
Como disse Woodward (2000) 1, “O social e o simbólico referem-se a dois processos diferentes, mas cada um deles é necessário para a construção e a manutenção das identidades. A marcação simbólica é um meio pelo qual damos sentido a práticas e a relações sociais, definindo, por exemplo, quem é excluído e quem é incluído. É por meio da diferenciação social que essas classificações da diferença são “vividas” nas relações sociais”. Portanto, a diferença é marcada em relação à identidade através de sistemas classificatórios que fabricam sistemas simbólicos por meio de exclusão.
Por isso, tanto as diferenças quanto as identidades são construídas e não dadas e acabadas. Mas apesar deste fator, investimos nas identidades porque elas nos ajudam a termos uma compreensão sobre o nosso eu, a nossa subjetividade que envolve a psique humana; daí a autora abordar os trabalhos de Althusser e Lacan sob a ótica de suas contribuições para que suas análises se estendam e possam compreender os processos que asseguram o investimento do sujeito em uma identidade.
É, portanto, impossível não se envolver por reflexões durante o filme. São retratos muito humanos do cotidiano, dúvidas, inquietações, dilemas, zonas de conforto que podem nos afligir sempre. Então, não é uma questão de início ou fim de uma vida; mas, da vida em si.
Justamente por não ser uma superprodução hollywoodiana e sim, um filme simples e bem construído é que ele se torna valoroso em pleno mundo pós-moderno, quando tanto a identidade quanto a diferença precisam ser representadas, pois só a partir da representação elas adquirem sentido.




1 SILVA, T. T. da (Org.). Identidade e diferençaA perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000, 133p.

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